26 setembro 2016

Sobre desenhar

   
    Para quem admira e pratica ou pretende aprender a desenhar é que dedico estas linhas. Desenhar é um ato singular por definição, de natureza individual; é escrever em caracteres sem pátria, sem língua, ou no dialeto do espírito. Para aprender a desenhar tal qual eu entendo, portanto, antes de tudo, deve-se manter um pensamento visual frequente, até que se torne constante. É preciso transformar todo o conteúdo visual em matéria de reflexão objetiva. Buscar uma espécie de emancipação reflexiva a fim de crer que não há métodos corretos nem melhores para se atingir um determinado objetivo no ato de desenhar. Isso porque a essência do método deve vir de um entendimento da natureza fenomenológica das questões visuais, partindo da relação que o indivíduo tem com o fenômeno. Estou defendendo, portanto, um aprendizado intuitivo por vias não verbais. Um aprendizado visual, contemplativo e reflexivo. Um dos pontos mais importantes é tratar de empreender uma luta psicológica contra qualquer barreira imaginária. Para ser mais claro: é preciso ser um louco que acredita ser um grande desenhista, e depois tratar de ser para provar que não está louco.
     A perícia técnica com o material na prática é conteúdo secundário, pois serve apenas como via de consumar a reflexão visual numa superfície. No entanto, é sempre posto em primeiro lugar para os que ensinam de maneira metódica. Mesmo porque sem ela nada acontece para efeito de desenho. Mas eu sugiro rigorosamente o contrário. Apesar de a materialidade do desenho ser indispensável para que ele exista, ainda é menos importante que o conteúdo que a sustenta. Criar, desse modo, intimidade com a visão, com os elementos que compõem determinada cena. Encher os olhos de razão contemplativa, estabelecer reflexões estruturais no conteúdo visual. Refletir profundamente como tudo pode ser reduzido num plano bidimensional a poucos elementos, nuances e degradês. Um desenho monocromático não passa de uma demonstração de domínio de noções espaciais cartesianas no perímetro do papel, que serão preenchidas por um dado domínio de transições de massas tonais que darão o aspecto tridimensional da imagem. E isso a princípio não é complexo. Em outras palavras, numa cena existem os elementos: árvores, casas, montanhas, pessoas, bancos, colinas etc... Esses elementos são delimitados por seus perímetros que determinam a silhueta do elemento, e preenchidos por degradês de tons que vão do claro ao escuro. Com essa noção é preciso agora refletir o máximo, e o bom é que dá para fazer isso toda hora, em todos os lugares, contando que haja luz e vontade. O estudo de desenho é muito mais visual do que motor. Creio que é perfeitamente possível, inclusive provável, que o caminho é tornar-se um grande desenhista muito antes de conseguir executar um grande desenho.
     Haverá uma espécie de somatização, pois o conteúdo dessa natureza reflexiva está tão diluído em seu aspecto sensorial que passará vagarosamente, na medida do tempo, de um estado de contemplação reflexiva para um estado de conhecimento prático intuitivo. Isso torna a próxima ação de desenhar um ato preenchido e mais seguro, o que dribla a insegurança do iniciante em romper a inércia, que é um fator que tanto atrapalha e desanima.
     Um desenho pode ser feito aos tropeços com rabiscos claudicantes. Se ao final ficar visualmente coerente e resolvido, todo vacilo ganhará mérito de estilo porque estará justificado em si. Aprender de maneira contemplativa dá muitas vantagens no quesito estilo. Para mim, estilo é aquilo que faz de si arauto de suas peculiaridades e erros, numa composição que os justifica.

homem destruindo para encontrar-se