25 fevereiro 2019

Estendido sobre a eternidade sem nenhuma espessura

A arte precisa seguir seu próprio curso como um rio. Precisa ser pensada para fluir no mundo através dos universos. Foi com ternura que descobri esse manancial. Vi nascer de meus olhos, se transformando num córrego, donde sempre bebi. Represou-se um lago, que demorou pacientemente até o dia em que rompeu, estourando num rio robusto e caudaloso, com torrentes e bravos ribeirinhos que dali se alimentam, ganhando afluentes e tocando moinhos, com força mesmo diante do Sol e da seca. Com a vontade correta, hei de desaguar na alma do mundo, para nunca mais ser esquecido, até o último homem. Mimeticamente metido em espaços de questões, colorindo lágrimas, preenchendo vazios, solidão, conquistando lugares, ocupando lacunas e gerando mais vida.
Aquele que faz sua obra para si mesmo não entende isso. Faço minha obra para o outro porque nada passa sem no final das contas ser apenas eu. Mesmo Kant, Einstein, Jesus e o outro. Todos em mim. Fazer para o outro é a maneira mais sutil, empática e delicada de falar de mim mesmo.
Quando restar apenas a obra, é preciso que ela saiba se comunicar. Que consiga criar seus próprios laços. Que se espalhe mundo afora, mostrando o tamanho de minha vontade, que sempre foi maior do que eu mesmo. Para provar o meu amor. Pela arte e pelos outros. Acabo meus trabalhos e digo a eles: “Vão em frente! Vocês sabem o que fazer, é preciso coragem, mas vocês vão conseguir. Tenham força, façam amigos, digam sim, amem desvairadamente e, principalmente, nunca se esqueçam da beleza por onde passarem.” E os deixo ir. Já não me pertencem mais.
Eu odiaria ser o tipo de artista que só existe mediante a manutenção de sua memória, feita por alguma fundação burocrática. Isso não faz sentido para mim. Se eu cair nesse limbo, saibam que eu errei. E, nesse caso, gostaria de ser esquecido para não acabar atrapalhando a verdadeira arte. Por isso, quero ser legitimado pelas subjetividades, fazer morada nos corações, fazer o sentido necessário, que eu mesmo desconheço. Em pessoas que ainda não nasceram. Elas, talvez, contarão suas histórias, estarão apaixonadas e farão triângulos amorosos com meu trabalho.
É isso! Um meio de amar e ser amado sem conhecer, sem precisar aprovar ou de aprovação. Essas pessoas terão outros problemas, e talvez não guardem muita ou nenhuma relação com os meus. Porém, no fundo de um mergulho nos encontraremos, e saberemos exatamente que a superfície é diferente, mas sentimos absolutamente a mesma dor, não importam as variáveis.
Acho que posso fazer isso. Acho que farei. Prestem atenção! Posso, quem sabe, até ser um louco, mas um louco que pinta e escreve e não faz muita questão de nada que não tenha a ver com a vida, a beleza e a arte.
Continuarei vivendo na arte, na plenitude de um sono sem sonhos, estendido sobre a eternidade sem nenhuma espessura, feito uma folha de ouro.