02 maio 2018

porque

      
susano correioa, o peso de estar, peso embruxados, aforismos
o peso de estar naquilo que se é

          Há dias em que simplesmente tudo está melhor. O mundo mais organizado, bonito. O desfecho dos momentos fluem como água num riacho. Os cães parecem mais inteligentes. Estamos fotogênicos a partir da alma. Os cabelos estão melhores, os rostos mais harmônicos. As cores mais vivas. Tudo se encaixando, dispensando perguntas. No entanto, há dias opostos, onde nada se encaixa, onde a atmosfera é ruidosa e imperfeita. Os desfechos desencontrados. Sairemos mal em toda foto. E uma grande questão paira tétrica no ar. - Por quê? - Maldita questão. Deita-se por toda a extensão de cada coisa. Como um glutão em sua sesta. Como se as coisas precisassem de um alicerce fundamental explicativo. Invade os dias bonitos. - Por quê? - Basta essa pergunta para estragar um bom momento. Depois disso já não sou capaz de afirmar nada. Já não posso saber se perguntei por desgosto, ou se desgostei com a maldita pergunta de todas as coisas maravilhosas que se bastam sem porquês. Desça pela escada-rolante de porquês enquanto ela despenca no espaço. Mas não vá esquecer de apreciar a queda.

18 abril 2018

lâmpadas baratas


Tenho buscado ser um pintor. É nisto que tenho me dedicado com todo o meu espírito. Nos encontros cotidianos e nos desencontros. Andar por entre os fenômenos contemplando e entendendo o que se pode entender, para imprimir na matéria, bruta ou refinada, o meu lamento mais profundo. Chorar lágrimas de cor em espaços neutros. Chorar e sorrir. Os fenômenos da luz, da matéria, do espírito… é o que me interessa: a dança em que tudo isso se envolve. Percebendo-se através do que se é, o mundo, ao passo que, se é, justamente aquilo que se percebe. As duas coisas juntas, completando-se e anulando-se mutuamente. Com braços e pernas. Eu gostaria de poder cravar um pincel no meu peito e pintar com o coração. Mas isso é uma grande bobagem. Pinto, para assim encontrar alguém que saiba do que estou falando. Pinto, porque pintando melhor me explico. Melhor falo de sutilezas. Melhor amo. Melhor o mundo me dói. Melhor preencho meu tempo e espaço.
Esse ofício é mesmo muito nobre. Singelo em essência. Quem nunca se perdeu rabiscando desenhos na areia da praia não me entenderia. Esse é um momento mágico. Efêmero, como as coisas perfeitas têm que ser. Pintar não é menos efêmero. Cedo ou tarde tudo se apaga. Escolhi desenhar na areia com severidade. Pintar é apenas isso.
Me pego a meio caminho do fim. Talvez eu morra amanhã. Acho improvável. Já me habituei a acordar toda manhã, de modo que tenho preguiça da morte. Me pego derretendo. A luz do Sol não ilumina nada sem a minha luz. Lavo minha cara e me olho no espelho. Venho plantar minhas imagens nos corações. Elas são filhas da luz. A luz do Sol que refletiu os fenômenos em meu espírito, que me fez, só deus sabe, sentir o que senti.
Houve um tempo em que eu e o Sol nos desentendemos. Sim, podem acreditar. Eu vaguei pela noite, preferia as luzes artificiais e a pouca luz. Pintei a meia-luz com lâmpadas baratas. Virei soturno e, naturalmente, mais melancólico.

homem abordo de sua própria solidão