21 novembro 2018

Em mim ergui um castelo.

Em mim ergui um castelo; todo o universo nisto que sou. Mesmo Kant, Einstein, Jesus. Todos em mim. Nada passa sem, no final das contas, ser apenas eu. Memória, história e isso de ser. Todas as coisas acabarão por não existir, fatalmente quando eu me for. Apenas porque cada coisa não é mais que uma sensação, um sentido atribuído, um delírio mais ou menos organizado.
Mais de um homem já falou que sabia o que era certo para todos os homens. Escreveu suas tábuas de leis, cheias de consensos imaginários e padrões. Eu, por minha vez, dispus-me humildemente a seguir seus conselhos, critérios e orientações. Mas sempre acabei por constatar que, de alguma maneira, os minerais são mais resolvidos, mais disciplinados, mais morais e fatalmente mais inteligentes do que eu, sobre os mesmos critérios. Não pode ser assim! Se é assim, eu sou o desajustado original! E quero mesmo ser. O pecador! Pelo sim e pelo não, dane-se!
Então, se um homem me diz que sabe exatamente o que é certo para todos os homens, eu lhe digo: esse já é um depoimento contra sua própria afirmação. Porque cada homem é um universo com sua constituição própria, com sua contingência, com suas escolhas e faltas de escolhas, com limites, e, com sorte, um coração não muito partido. De onde partirá para ver o que só ele poderá ver. Porque existem mil luas para mil pessoas olhando a mesma lua, assim como mil livros para mil pessoas lendo o mesmo livro. E será sempre um novo livro a cada leitura. Porém, cada um e cada vez, todos devem sentir-se responsáveis por aquilo que escrevo, ou melhor, por aquilo que lê. Porque, quando chega para o outro, já não é o que foi escrito, mas o que foi lido.Todas as pessoas começarão e terminarão levando tudo consigo, assim como eu. Memórias, histórias, Kant, Einstein e Jesus. O fim dos tempos é particular, dia após dia, pessoa após pessoa.
Aquela velha ideia do paraíso não é a perfeita descrição do próprio inferno? A mim me parece. Um lugar sem aventuras, sem drama, sem histórias. A última nota do marasmo ecoando por todo o infinito em linha reta. Um tanto quanto hipócrita. Um tanto quanto ingrato da parte dos homens. Um ideal tão vago. Coitados de nós! Isso é uma expressão da nossa angústia, de, no final das contas, ter a plena certeza de que não é do paraíso que precisamos. Muito pelo contrário. Que no paraíso não poderia haver, ao cabo de sete semanas, um pingo de felicidade. Justamente porque não haveria contraste. Apenas o tédio, que, na verdade, por mais que tentemos negar, ainda é pior que a tristeza. Só é triste quem experimentou a felicidade. Na tristeza descansa a própria felicidade.
Conte-me histórias de salteadores, amores proibidos, duelos, deuses crucificados, guerras por décadas, diásporas, exílios, fugas de prisões, assaltos a trens, expiações de crimes. Mas, por misericórdia, não me conte sobre um piquenique no paraíso ou sobre como, num dia de sol, ajudaram uma coelha a parir seus filhotes. Não foi o próprio Deus onisciente que arranjou para ele a morte mais dramática e linda entre os mortais? Acho que, o que quero dizer, é que não queremos efetivamente o que desejamos. Precisamos desejar o impossível. Porque não podemos querer o que queremos. Querer acaba por ser o que somos. Vontade! E nisso nem adianta tentar enxertar muita razão. Porque a tentativa já é a própria vontade, que irá sempre sobrepujar tudo.
Não repare na bagunça das minhas ideias. Na verdade, eu nem me importo, mas vou tentar não rodopiar rápido demais na minha própria confusão. Manter alguma coerência, mas não muita. Pode até ser que minhas notas acabem por pregar o Evangelho. Improvável. Sabe lá que contingências me impelirão pelos vãos do presente, de coisa em coisa, de sentimento em reflexão, de memória em sentimento, de dor em juízo, de contradição em contradição, pelas veredas, entre a sorte e as escolhas, entre as faltas de escolhas. Se é que no fundo há qualquer escolha...
Aceitei, por fim, o sentido do movimento. Não me agrada parar por muito tempo, nem em um estilo, nem em um pensamento que seja.Todavia, com isso, foi preciso desapegar-me do autojuízo em boa medida. Ou me arrependeria amanhã mesmo dessas linhas. Afinal, como posso julgar se hoje já não sou o mesmo de ontem? Tudo bem. Deixarei que eu seja quem sou a cada segundo. Mas devo cuidar de não me tornar um juiz de minhas outras versões numa hora dessas. Pelo menos, não um muito rigoroso e autoritário. Sim, isso, na verdade, já é bem paradoxal. Deixe para lá... Não escrevo como quem quer explicar-se ou aconselhar no sentido prático. Escrevo unicamente como quem descama de sentidos, onde o fluxo da existência passa despindo, carregando e deixando marcas, para finalmente apagá-las junto a todo o resto. A brisa do tempo há de me desmanchar sem piedade, como um castelo de areia. Esse castelo que ergui em mim. Porém, ao menos tentarei, como as gaivotas, planar contra o vento.
Passar é a sina de tudo. Saber é a sina do homem. Saber que passa! Eis a síntese do drama. Todo o resto é, talvez, a tentativa de abreviar essa condição. Saber, logicamente, não pode ser a forma mais eficiente de arranjar meios de não saber. A partir daí, as coisas se tornam meramente paliativas. Afinal, é uma luta desleal contra o desconforto que é a condição humana. E sendo assim, fatalmente, não negarei o sofrimento nem a melancolia para trabalhar de maneira atenuante. Prefiro retratar a coisa em si. Se a condição é sofrer, que seja! Que seja com beleza! Que seja pela beleza!

retrato susano correia pintando arte