20 dezembro 2017

sinto

Eu sinto uma falta de alguém. De alguém que um dia fui. Sinto falta de ser. Sinto que já sou a própria falta de ser. Sinto e é tudo.
Hoje um raio de sol refletiu numa flor, varou os meus olhos, dançou nos meus nervos e me fez luz também. Cruzou o céu para se alojar nos meus sonhos de contemplador. Venho da terra para tomar meu banho de sol e deitar-me. Levarei as imagens comigo? Mirei na noite minhas mágoas quanto a isso e chorei. Eu sei que preciso da beleza. Quero ela como quero a eternidade. A eternidade que não é o tempo estendido feito um varal ao sol. Que é muito mais. O impossível. O equilíbrio entre todas as contradições. As respostas já contidas em cada pergunta e visse-versa.
As vezes é como se eu fizesse questão de doer. Sou ótimo em sofrer. Sofro com classe. Faço piruetas. Posso inclusive expressar meu sofrimento com graça e dividi-lo entre os homens. É um dom. Minha fonte é conhecida de todos. Tenho uma sede desmedida do inevitável. Quero mesmo ser sensível e lúcido o bastante para entornar a consciência da morte sem medida. Não sem medo porque isso é para os fracos. Quero tremer até a raiz dos cabelos de tanto olhar para o abismo com meus próprios olhos. Olhar para tudo quanto é lindo sem vícios, sem dogmas, sem certeza de nada. Simplesmente flutuar.

homem tocado por seu próprio coração partido