25 novembro 2016

uma noite no inferno, para sempre


a vida segue maravilhosa e triste de cadeira em cadeira,
na sala, no carro, no trabalho, no divã,
no divã, nunca eu,
sempre um Cristo, um Crasso, um Calígula,
por onde me exprimo mil demônios passam,
e vós quereis voltar por esse caminho?
sou um milênio de contradições e mentiras equilibradas,
tenho raízes nas raízes nas raízes nas raízes para sempre.
sou o eco que vem do meu abismo,
mas também sou o próprio abismo e a escuridão,
tanto quanto aquilo que grita,
cuspo para cima porque sei que o que está em cima também está em baixo,
a morte nunca foi o critério,
sou precisamente o tudo e o nada num beijo falso, sem amor,
meu erro é seu erro, e seu erro é só seu,
choro lava por um dos olhos e gelo por outro,
posso te contar uma história que você vai desejar jamais ter ouvido,
preciso contar, porque já estou inchado com as lágrimas que engoli:
outro dia passei uma eternidade no inferno,
ele era trivial como uma festa, mas terrivelmente eterno,
era um estado de espírito, um desencontro com a paz,
numa intensidade que a vida não comporta, sem começo nem fim,
um desespero espiralado, inspirado,
precisei vomitar fezes nas trevas de um banheiro qualquer,
cercado de lamentos e arrependimento,
pelas veredas dos meus piores medos,
numa selva escura, 
o pior de mim, para mim, para sempre,
sendo portanto não somente meu carrasco, mas o próprio inferno, e meu condenado,
numa torrente abstrata que mal podia dar conta do presente segundo,
e já tendo que apavorar-se com o próximo,
como se ainda coubesse alguma escolha, 
havia uma única certeza,
a de que eu não tinha a menor vontade de pedir ajuda a deus.
um instinto de sobrevivência, uma coragem qualquer,
que sabia, que pedir ajuda seria dizer sim ao inferno,
seria negá-lo, e com isso, negar-me,
seria afirmar que não sou soberano da minha pior parte,
ainda que ela seja totalmente vil e desprezível, e incontrolável,
ainda que ela seja terrivelmente e inconsolavelmente eu. 

aforismos visuais, embruxados, notasvisuais, susano correia
homem desconfortavel em si

07 novembro 2016

Esperemos cinco minutos, por toda eternidade


Qual a metade do infinito? Supondo a infinitude do tempo, sou levado a pensar que o presente instante divide o infinito passado do infinito futuro. Tenho o privilégio de constatar  o ponto médio do infinito e  também de testemunhá-lo consciente dessa raridade. Enquanto minha luz durar, pretendo emparelhar minha alma ao seu lado pelo tempo que conseguir. E há de chegar o tempo em que estarei cansado de mais e deixarei de correr para deitar e virar a mesma inexistência de antes pela mesma eternidade de sempre. Esperemos cinco minutos, por toda eternidade.

aforimosvisuais, susanocorreia, notasvisuais,
homem pensando profundamente sobre nada