06 agosto 2017

Tudo consta ainda que como ausência

De uma coisa estou certo: eu vim para amar, e todos sabem que amar é sofrer. Por isso, sei que nada pode ser simples. Ambivalências ao infinito, numa gangorra que nem é reta nem tem um ponto fixo. Posso me estreitar se for o caso de dar espaço ao amor, mas também posso ocupar todo um coração expulsando até seu próprio dono. Tudo consta ainda que como ausência. Tudo perturba-me nesses imperturbáveis. És rico, és rico de toda miséria que não é tua. Mas também não pedimos nada. Que sorte nos trouxe de outras estrelas para brotar, saber, amar e doer? Que azar nos impeliu por todos os vãos? Que segundo é esse que pode conter toda a sorte e todo o azar de todas as coisas ao mesmo tempo? É claro que é tudo mentira, não é? Não! Coisa à toa a vida. Que chega sem saber, que vai sem saber. Mas que enquanto passa arrasta todas as correntes dessa dúvida. Mas que dúvida é essa? Eu não sei. Nem sei como começar essa pergunta. Ela é maior que a vida. Mas então eu vou perguntar a vida inteira, no amor, na pintura, na música e em cada suspiro. Talvez a própria vida seja a chance de formularmos a mais bela pergunta sobre o que ela é.