28 março 2016

O início dos Embruxados.


   Tenho o hábito de ter sempre um sketchbook que me acompanha. Boto na primeira página a data do primeiro desenho, e sigo com ele trabalhando, até acabarem as folhas. Depois, coloco a data do último desenho e assino. A essa altura, tenho 23 bloquinhos completos. Faço isso desde 2009. Isso ajuda muito nos estudos porque fornece uma cronologia dos desenhos, e permite ter sempre uma plataforma confortável e prática à mão, ideal. Eu recomendo, para qualquer pessoa que mantenha um pensamento criativo em qualquer área, esse habito, além de ser um ímã para segurar as ideias sempre tão voláteis. Acredito que sem isso não haveria hoje os Embruxados.
Gravura: Um diabo lógico. 
    Os Embruxados surgiram de tantos lugares que eu mal consigo reunir uma história coerente. Muito no princípio da série, há uns 3 anos, eu vinha estudando uma maneira de desenhar corpos, e estava empolgado com os resultados. Eu havia visitado duas exposições: uma das gravuras de Lucian Freud e outra das gravuras da Divina Comédia que Salvador Dalí ilustrou. E dentre excelentes imagens, uma gravura do Dalí marcou toda a viagem. Ela me inspirou de verdade. Acredito que é muito razoável que um trabalho sirva como referência em vez de um artista, como costumam dizer. E foi isto: uma gravura influenciou muito os Embruxados. Eu já conhecia o trabalho, mas não pessoalmente. E foi uma adorável surpresa vê-lo lá sem esperar. Confesso que a dimensão diminuta foi bem surpreendente. Mas é incrível como essa coisa de imaginar o trabalho com um tamanho e descobri-lo com outro é recorrente.
Esboçando uma gravura de Freud.
  Então, num belo dia, já de volta a rotina, acredito que tive uma experiência estética fundamental para a série. Eu vinha de moto pela rodovia 282 a caminho do meu destino, quando avistei na marginal um homem passeando com um pássaro engaiolado, como é costume por aqui. Só que ele era cadeirante, e confesso que foi a primeira vez que vi, um cadeirante carregando uma gaiola. Tendo em vista que eu entro em algum tipo de condição reflexiva muito singular quando ando de moto, talvez pela atividade automática que é pilotar somada à velocidade com que a paisagem passa. Mas aquela cena me levou a uma profunda condição de apreciação das significações contidas naquela alegoria do cotidiano. Fiquei o resto da viagem pensando com efeito na potencia da imagem. E quando tive oportunidade, desenhei-a à maneira dos Embruxados. Foi um estudo e uma experiência que deram margem e fundamentaram os Embruxados. Uma bela imagem.
    Então, comecei uma busca por algo que gosto de chamar de belo, uma beleza singular e despretensiosa, com raízes na contemporaneidade, nas incongruências, nas contradições. São aforismos visuais. Quase filosóficos, diria. Penso que se a beleza está nos olhos de quem vê, cabe a mim falar em termos menos morais e objetivos, para que a malícia da beleza exerça seu papel mais sedutor, de emoldurar o quadro pessoal de quem vê. É como procuro pensar. 
     Vou finalizar esse post por aqui pois acredito que tá ficando longo. Continua no próximo. Obrigado para quem leu!


2 comentários:

  1. Parabéns pelo trabalho desenvolvido, venho acompanhando seu trabalho no Facebook, massa você ter feito esse resgate histórico de como surgiu o Embruxadoa. Vem se garantindo muito. Fiquei fascinado por esse desenho do cadeirante com o pássaro na gaiola. Uma arte para além da arte sendo arte. Saudações, camarada. Abraco

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    1. Obrigado, Gustavo! Fico muito feliz em saber que meu trabalho significa para você. Seja sempre bem vindo aqui e nas minhas redes sociais. Abraço.

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