11 abril 2016

A lição de um gordinho figurão.

Um dos estudo em aquarela.
     Teve uma vez, num dia muito agradável de meia-estação, isso há uns dez anos mais ou menos, que meu irmão e eu saímos pra fazer umas aquarelas. Fomos parar na praia do Tomé. Pra quem não conhece, é uma praia de pescadores, com marisqueiras e tal, e uns barzinhos que vendem uma cerveja muito gelada e frutos do mar coletados na hora. Uma praia não muito longa. Fica atrás de um morro. É preciso subir e descer o morro para chegar até a praia, e a decida é muito inclinada mesmo. Quase no topo do morro fica o antigo cemitério da Barra, que pode ser visto de quase toda a extensão da praia da Barra. Muito romântico aquele pedaço. E tem umas quebradinhas bem legais. A estrada que passava pelo morro era o único acesso à praia, e chegava bem na ponta direita dela. Ali havia dois barzinhos lado a lado, e o resto era um mato que contornava a praia até o final, que só se podia ir pela areia. Bem no extremo oposto havia algo que parecia um bar abandonado, muito pitoresco, reminiscências dos anos 80, eu acho. Um tanto mal frequentado atualmente, por pessoas sempre com muita pressa e sem nenhuma simpatia. Mas chegando na praia, à direita, havia uma ruína e um pequeno bosque bem legais. Nos sentamos ali. Eu me sentei bem embaixo de uma palmeira, encostado, e ficamos a conversar, pintando as jangadas, e os bares, e o mar.
Estudo em aquarela.
     O dia estava realmente muito bonito. O sol refletia cores vibrantes e não esquentava demais. O vento também não atrapalhava nada onde ficamos, era embate do morro, mas o mar tinha um movimento bonito que colaborava com os reflexos. Era um dia para se lembrar, tinha o frescor da primeira juventude. Os pássaros, a praia, as canoas, a jangada, as pessoas de bem com a vida entrando e saindo dos bares. Tudo isso ali deixava o pensamento fluir naquele transe apreciativo. Podia-se dizer que era uma experiência estética muito boa. Eu pensei naquela praia, que meus pais também haviam frequentado em outro tempo, que certamente tinham outras histórias. Um pedaço bem especifico e inspirador, mas que poderia muito bem passar despercebido porque tem uma despretensão típica da Barra. Mas estava feliz por estar ali e reconhecer tudo aquilo, feliz por pintar ali, por apreciar aqueles momentos, por ter pensado algumas coisas interessantes. De repente pensei que as coisas – se você adquire algum grau de abstração e interpretação – podem todas ser significadas e ressignificadas. Qualquer gesto da natureza vira uma metáfora potente. Pensei com efeito nisso. E compartilhei com meu irmão aquele pensamento. Um daqueles pensamentos que você mais sente do que pode verbalizar. Ele até fez uma referência sobre a maneira como Jesus pregava e tudo, que tinha muito a ver com o que eu tava falando.
     Mas enquanto conversávamos e intercalávamos entre ver a paisagem e pintar, no momento em que levantei a cabeça, um gordinho varou o ar num grito alucinado. Ele vinha montado numa daquelas bikes cross pequenas, desceu o morro inclinadíssimo, completamente sem freio, e foi parar no meio da água, a uns 10 metros de nós, no recorte da minha cena. Foi um troço paralisante.  Ele era um daqueles personagens prontos, figurão. Eu não sabia se ria, se ajudava, se continuava minha profunda reflexão que, a essa altura, já tinha ficado ridícula, enfim. Foi assim. É engraçado como às vezes nada acontece, e às vezes tudo acontece em um segundo. Foi uma agudez de momento tão marcante que eu jamais vou esquecer aquele dia. O dia em que um gordinho caiu como uma pedra no lago calmo duma experiência piegas. Ele me deu uma lição e tanto.

Este é posterior, mas vai aqui para fechar o post. Duas bateiras. Acrílica sobre tela, 35cm x 27cm.

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