04 abril 2016

O início dos Embruxados (parte 2)

   
     Esta é uma continuação do post anterior. Então, para um entendimento completo, leia também "O início dos Embruxados".
      Eu buscava uma poética incansavelmente estudando e experimentando. E passei um bom tempo fazendo isso. Mas apenas as circunstâncias puderam fazer das vivências uma figuração artística. E, diante do tempo necessário, as coisas se relacionaram por conta própria. Eu tinha já alguma coisa, uma boa direção em relação aos Embruxados. Mas, a essa altura, o nome ainda não existia. Eu tinha uma ideia conceitual. E tinha um estilo de desenho que casava muito bem. Eu vinha estudando Francis Bacon, pois adorava sua ideia de pintura, que atinge direto no sistema nervoso. Eu procurava então uma contextualização. 
Eu transbordo eu.
   Existiu um artista florianopolitano chamado Franklin Cascaes, que trabalhou a cultura oral do povo da Grande Florianópolis. Ele fazia trabalhos de pesquisa e coleta de material nas atividades de pesca, histórias mitológicas, lendas, medos. E transformava tudo isso em trabalhos artísticos, desenhos, cerâmicas, contos. Como essa cultura era rica em histórias de bruxas, boa parte do seu trabalho é relacionado com o tema, inclusive é a parte mais conhecida, creio. E numa dada entrevista, ele disse que "a cidade está embruxada", referindo-se ao crescimento desenfreado de Florianópolis em detrimento da cultura local. Foi aí que eu tive a ideia, e percebi que ele havia criado o gérmen do conceito que eu precisava para amarrar meu trabalho. Me apropriei do elemento e apliquei aos meus trabalhos. Desde então, tenho adaptado e lapidado o termo, aplicando-o em níveis mais individuais e psicológicos. Porque realmente acredito nos embruxamentos desse tipo, ocasionados pelos modos de vida atual.
     Existe algo em nós que vai muito além de nossos domínios. Não somos educados para lidar com isso. As relações que existem entre nós e a trivialidade com que julgamos nos conhecer é muito inocente. E na minha opinião, isso é muito bonito. Talvez seja um pouco triste, mas o que seria da vida sem a melancolia desses fatos irremediáveis? Qual a graça de um dia após o outro, se você tivesse a certeza de que um próximo sempre virá? Quer dizer, é como por um espelho em frente ao outro e poder olhar para as infinitas reflexões sem que seu próprio reflexo atrapalhe. É de uma sutil importância nunca saber ao certo questões fundamentais, porque é força motriz máxima da imaginação, que os homens usam para toda sorte de histórias que inventam sobre as coisas que não podem saber. E ao menos para a arte é rico. Um dia de chuva todo dócil, caindo dos céus e influenciando toda vida que atinge, fluindo como a própria vida por todos os caminhos. A água fazendo um elaborado percurso sem sequer saber-se caminhante. E nós, fazendo nosso elaborado percurso com esse fardo de ter uma centelha de noção, que é o bastante para nos fazer criar arte, ou morrer de medo. "Se você olhar de mais para o abismo, o abismo olha para você."
     Até o próximo!

Homem que não chora cortando cebola.



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