23 maio 2016

A falta como poesia/beleza

    
     As substâncias que movem a vida e suas potências são forças abstratas e misteriosas; não podem ser medidas, tampouco expressas sem uma inevitável prolixidade. Diante do limite de verbos e substantivos precisamos recorrer a figuras de linguagem subjetivas se pretendemos falar sobre tal delicadeza.
     A poesia é um fenômeno circunstancial manifesto sobre qualquer plataforma natural ou artificial, que tem uma singular potência de imputar uma sensação de sentido à vida. Nossa busca racional pelo sentido da vida é um fracasso, e é daí que nasce a essência do que é poético.  Da eterna perda, da desesperança, da morte, da falta. A potência da beleza habita no drama da condição humana. E as belezas mais simples de apreciar costumam ser as de virtuosa perfeição, que ganham simplesmente pelo caráter de impecável forma uma característica heroica, ao se apresentarem tão bem vestidas diante da morte.
     Não faço uma clara distinção entre beleza e poesia. Na verdade acredito que essa separação é precipitada. Deste modo a beleza está conjugada com a fruição da aparência. E o belo não ganha formas físicas matemáticas ou harmônicas, necessariamente. Mas depende de uma série de sutilezas relacionadas a significações estruturais baseadas numa falta comum a todos. Interpretada singularmente por cada um.
     Partindo daí, podemos refletir a beleza como critério moral. De sorte que os atos dignos são aqueles que atribuem a sensação de sentido à vida.
   
homem com um sonho enviesado


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