16 maio 2016

Eu por detrás de mim


     Considerando que somos seres estéticos e capazes de refletir sobre estética, temos somente por esse motivo mais uma questão existencial fundamentalmente humana para ocupar-nos. Questão que vai nos perseguir e amadurecer, paralelamente em dois âmbitos, na medida dos anos. Amadurecimento físico e reflexivo.     
     Sobre isso, autoimagem, uma questão sempre me perturbou: o fato de que jamais veremos nossa própria face. Ironicamente. Talvez como figura de deboche, talvez como mais uma cruel circunstância. Você jamais verá o seu rosto! Apenas de maneira indireta, através de espelhos ou fotos, nunca com os próprios olhos. Tão perto e tão longe, como a própria morte. O autorretrato entra, diante dessa condição, como um elemento conceitual absurdamente poético a priori. Porque todo autorretrato é um lamento daquele que sente, mas não vê; daquele que os outros veem, mas ninguém sente. E será ele mesmo, o autorretrato, a transfiguração desse paradoxo conceitual. Ele, partindo do próprio sujeito, carrega algo do conteúdo invisível para o outro. Pois nasce da complexa relação do sujeito com sua própria imagem.     
     Para mim, nunca ficou exatamente clara minha própria imagem. Nunca consigo apreciar meu rosto num espelho, sem vício e afetações, e, além do mais, o espelho inverte e nos dá ângulos restritos. Não gosto muito de ser fotografado também, e fiz poucos autorretratos. Mas sou fascinado por autoimagem e as reflexões que ela traz. Mais uma questão de interesse geral, que se manifesta de maneira singular nos indivíduos. Esse é um ponto que me interessa.

homem com profunda sede de si

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