04 julho 2016

Autoridade sobre a minha miséria


     Só de pensar em como, nesses seculares anos de pensamento ocidental, esquartejamos e esmiuçamos as questões fundamentais sobre o mistério, as origens e a morte de forma tão nervosa e apressada, tenho a impressão de que olhar pra elas agora não é fácil como poderia. Porque estão dilaceradas e abertas, como um amontoado exposto de carne viva. Então a repulsa e aversão são a regra. E se por um lado tratávamos de pensar meticulosa e racionalmente nessas questões, por outro lado, parte da potência irracional ou sentimental foi logo dando forma de religião a elas. E culminamos numa situação complexa em que as coisas precisam fluir holisticamente mas de maneira indissolúvel como água e óleo. O que temos de bom atribuímos a um deus. O que sobra precisamos escoar por uma guerra ou atrocidade de vez em quando, e nessas épocas até o diabo fica sem jeito. Este é o duplo da humanidade, e de um jeito ou de outro, teríamos que ter um. Sem duplo não há profundidade.
      A arte, bem sei, é dependente de tudo isso, porque é contingente da potência humana diante do que já está dado. Mas eu quero margens! Afastem de mim estas fronteiras! Quero ser minha filosofia e minha religião. Preciso de espaço para ser-me. Quero autoridade sobre a minha própria miséria, pelo menos isso! A morte é minha! A minha morte. 
     Numa flor há mais profundidade de conteúdo do que em todas as reflexões mais desesperadas que se pode ter. Porque ela é apenas uma flor, e nem pretende ser mais. No entanto, no entanto... ela é reticente para todos os lados, e carrega o peso do infinito com a despretensão da mais singela existência, que enche meu coração de beleza.

homem com a mente mais aberta do mundo, e não se discute

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