18 julho 2016

Realismo psicológico

   
     Pessoalmente, eu não me apego muito a denominações de estilo. Nomes que pretendam descrever um estilo quase sempre têm tantas disfunções quanto funções, pelo menos para o artista. E já vejo a necessidade de alguns em me denominarem. Geralmente chamam-me surrealista. Mas, apesar de minha preferência ser manter em aberto a denominação para que não me enquadrem em estereótipos logo de cara, preciso me antecipar a dizer que meu estilo é antes um realismo psicológico do que surrealismo. Minhas imagens são menos oníricas; elas são sóbrias e lúcidas. Descrevem estados do coração, ou seja, do indivíduo e suas relações psicológicas. Não sugere fantasia, não pretende criar atmosferas fantásticas. Pelo contrário, pretendo antes firmar os pés na realidade da condição humana, sobretudo contemporânea. Os terríveis e maravilhosos caminhos, de cadeira em cadeira, em casa, no trabalho, no carro, na aula, nos bancos, nas filas, no divã. 
   Também me chamam lúgubre e demasiado melancólico. Talvez, mas isso é simplificar-me demais. Eu reconheço a tragédia humana, essas pobres criaturas sem asas, que invejam até as baratas, porque podem voar. Sempre tão embuchados em sua vantagem de poder pensar racionalmente. Antes não tivessem vantagem nenhuma. Porque não nos serve para educar direito nossas crianças, não damos conta. Na ânsia de sermos monumentais e ostentar essa nossa larga superioridade sobre todas as criaturas, não fazemos mais do que expor nossa gigantesca e laboriosa estupidez. A questão é simples de mais, sabemos do que precisamos, mas não podemos abrir mão do excedente que nos destrói. E por mais que você queira, por mais que você tente enquanto indivíduo, está preso nas teias do que não pode escolher. No organismo maior que é a humanidade. Nos séculos de circunstâncias bizarras que a história nos conta. Nossa trajetória sobre o firmamento, sempre decidida por motivos bem menos nobres do que fazem parecer. No  orgulho pela cultura que já nem serve mais. Tudo que tocamos se torna artificial e inorgânico. Tem alguma coisa muito errada nisso. Nós falhamos? Falhamos enquanto espécie? Eu me afasto para olhar essa grande loucura frenética que é a humanidade, e sou salvo quando consigo enxergar a comédia que é.

homem suicida sem potencial

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