01 agosto 2016

Só sei que nada não sei


     Em um determinado momento tropecei em mim. Não sei exatamente como nem quando, mas bem ali no chão onde cai me tornei existencial. Eu ainda era criança, e como um relâmpago me dei conta da morte. Isso é muita coisa para dar conta. Senti o tempo soprando como uma leve brisa, constante e fria. Pensava, o tempo AGORA!  Mal terminava de pensar e via aquele instante ser sobreposto por outro e outro, num infinito desembarque. Tão escorregadio e ininterrupto que a rigor fazia tudo parecer uma mentira factual, uma ilusão.
    O tempo assina o passado, e o passado é conteúdo intelectual de uma memória de todos e de ninguém. O passado finge que existe, e nós acreditamos nele como fundamento dos nossos dias. O futuro é o ar que respira os instantes. Nós somos habitantes do presente, do instante, entre passado e futuro, sobre a terra e debaixo do céu. Esmagados.
     E de tanto pensar, repensei e repensei. Chegamos assim, meio que de intrometidos, com tudo em curso. Para passar uma temporada e partir. Se não é absurdo? Mas só pode ser absurdo, porque é! Lacunas para todas as minhas loucuras, é só o que posso querer. Tanto passado para dar conta, tantos pensamentos obsoletos que precisamos para poder negá-los. Complicamos tudo para poder explicar que tudo deve ser levado na última simplicidade.
   Todos os conhecimentos e todas as experiências, multiplicadas pelo número de interessados, esse é o calculo da nossa confusão. Enquanto isso os pássaros voam sem culpa nenhuma. Se não fosse a arte, acho que já teríamos sido extintos pela vergonha. Temos que lidar com uma situação: o fato de saber. Só sei que nada sei? Quem me dera nada saber. Sei, e sei mais do que gostaria. Sei que sei, sei que deveria ter alguma vantagem com isso, sei que sofrer não vale a pena e sofro, sei que não sou um pássaro, sei de todo tipo de injustiça e sei muito bem que vou morrer. E sei também que existe um grande mistério que envolve tudo o que posso saber, que nunca vai anular o fato de tudo que sei. Enquanto sei eu dessas coisas, outros sabem de tudo diferente, e até ao contrário, e seguimos chamado isso de pluralidade enquanto estragamos tudo para os abençoados que nada sabem, mas que sabem voar.
     Mas de que serve isso de saber? Isso nos oferece uma complexidade singular, que nos leva a ter vários predicados existenciais, nenhum bom nem mau em si mesmo. Porém, a maneira como lidamos com estes predicados é o que nos conduz pelas veredas da nossa própria história.

homem lembrando de sorrir, no último segundo

Nenhum comentário:

Postar um comentário