16 outubro 2016

Estar certo é estar fraco

E se existir sim a imortalidade, mas ela for arranjada de modo que seja impossível sabê-la? Uma vida eterna picotada com incontáveis mortes, que nos dão sempre a chance de um recomeço e nunca de estabilidade, de segurança. Me parece mais interessante e até mais razoável que a ideia de uma vida eterna ininterrupta, empapuçada, conformada, enjoada ao infinito. O elemento "fim" é potente sem igual. Nos força a correr para a frente com o chão desabando às nossas costas, cada vez mais de pressa, com o pavor do abismo, que no fim das contas ninguém chega a cair, porque há uma rede de proteção. Para quem está vivo a morte é pura especulação, e para quem morreu, já não importa. Ela é o encontro inevitável com o desencontro, nunca chegaremos a sabê-la. Enfim, parece mais justo com tudo e todos, inclusive, que se possa ter outras chances, outras mortes. Mas quando estendemos qualquer ideia ao infinito, ela se torna perturbadora. Todas as chances, todas as mortes, para sempre. Porém, nesse caso, há uma correção muito eficiente, porque jamais poderíamos estar certos do infinito, devido aos recomeços, e portanto não poderíamos sofrer dessa certeza. Morrer anula as certezas, e estar certo é estar fraco, apegado, acovardado, inocente. Haja margens para tudo, porque a morte roubou as certezas para si, e agora ela é a única.

homem se sentindo na terceira pessoa

8 comentários:

  1. Cara.. você é demais!

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  2. "Para quem está vivo a morte é pura especulação, e para quem morreu, já não importa." Esse seu trecho me lembrou uma passagem de Epicuro "Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos." Na verdade, todo o seu texto me fez lembrar bastante Espinoza, e até mesmo Nietzsche. Gostei, você escreve e desenha muito bem, digno de um artista.

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    1. Espinoza não, Schopenhauer* Pois a potência da vontade que é geradora da vida é uma eternidade que não percebemos.

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  3. Aceitar a provável inexistência em troca de uma ''pressão para fazer os corre''... não me parece uma boa troca. Antes a disciplina de não fazer por pressão ou por medo de não conseguir, mas por realmente querer chegar a algo. Antes o tédio criativo, não de ser um semi-deus eterno, mas de ter a opção de escolher quando ''partir''. Ainda há muito para ser descoberto e deslumbrar nossos sentidos e pensamentos, o interessante é ''transcender-se'' para fugir da mesmice.
    E sobre ''renascimentos'', não me parece lógico achar que o ser que renasce ainda é o mesmo, a consciência é fluxo ininterrupto, não somos os mesmos nem em uma única vida, quanto mais em várias, desprovidas das mesmas memórias. Independentemente do comentário, o texto é bem escrito e cativante, apesar de discordar da posição filosófica defendida.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. "Assim falava alguém de si para si, em uma caminhada ao sol da manhã: alguém em quem não somente o espírito, mas também o coração sempre se transforma de novo e que, ao contrário dos metafísicos, se sente feliz por albergar em si, não ‘uma alma imortal’, mas muitas almas mortais” – Nietzsche, Humano Demasiado Humano

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