14 janeiro 2019

vendo o artista - mercado


Tenho por vezes a impressão de que os jovens artistas têm algo como medo ou vergonha de que o trabalho artístico tenha uma relação com o mercado. Como se o dinheiro violasse alguma pureza nos trabalhos. Reconheço esse fenômeno como uma das heranças românticas. O jovem artista acredita, por vezes, sem sequer ter pensado muito sobre isso, por mera intuição, que vender seus trabalhos os diminui de alguma maneira. No seu ímpeto de criador cheio de energia, não se dá conta que, de qualquer maneira, as tintas acabam, as pontas dos lápis quebram, as telas precisam de lugares para serem expostas ou, no mínimo, guardadas, e que tudo isso passa necessariamente por inúmeras relações que envolvem o dinheiro. Portanto, por mais que se deseje uma pureza, já se está longe disso, sempre. Deixemos de hipocrisia para poder dedicar à arte a verdadeira honestidade, e que nessa honestidade estejam contidas todas as questões impostas, para que a arte possa falar também dessas questões de dentro para fora, de onde melhor se vê; reconhecendo as contradições, trabalhando com elas e a partir delas. Desse modo, os problemas do mercado tomam seu lugar nos temas da arte ao invés de ser uma espécie de boicote que amputa as pernas do artista ainda na linha de partida. Peguemos o melhor da herança romântica e deixemos de lado o pior. Não se engane! Vincent van Gogh adoraria ter vendido suas pinturas para pagar sua imensa dívida com o irmão. Talvez isso mesmo o tenha enlouquecido.
Durante meu percurso acadêmico, uma coisa pareceu ter ficado bastante clara: não havia nenhuma perspectiva na profissão de artista ou, pelo menos, nenhuma preocupação ou importância dedicada neste ponto. Isso levou a crer que, de fato, ou não há como, ou não tem porque pensar no artista como profissão. Já escutei, inclusive de um professor, a frase: “Ninguém vive de arte.” De qualquer maneira, isso estava implícito na atmosfera e, quando é entendido subjetivamente, talvez seja ainda pior. Por esse motivo, vê-se muito um retorno dos bacharéis para fazer licenciatura e poder buscar finalmente uma profissão ou, ainda mais comum, a pura e simples desistência.
Acredito que o artista possui um ofício muito nobre e que deve, por isso mesmo, ter seu lugar de destaque social como qualquer profissão comum. No entanto, o contexto brasileiro, que tende a ser culturalmente heterogêneo e confuso, deixou as artes visuais num lugar estranho. Somos marginais de museus. Intelectuais demais para ser populares e arrogantes demais para fazer algo a respeito. Onde está o equivalente das artes visuais, a MPB na música? Uma arte que, apesar de um rebuscamento técnico e poético, seja popularmente aceitável, que fale das relações comuns, do amor, dos problemas existenciais. E que guarde relação de interesse com as pessoas comuns com seus universos simbólicos ávidos de representação, amor, vida, beleza e mistério. Esse lugar está subocupado. Nele existe espaço o bastante para uma geração de artistas que eventualmente tenham interesse em viver de arte a contragosto de muitos acadêmicos. E que finalmente têm à sua disposição uma ferramenta revolucionária: a internet. O artista não precisa mais de galerias, de críticos, enfim, da política tradicional da arte. Há um novo caminho, jovem e direto.
No que diz respeito a vender-se como artista ou não, resolvi esta questão da seguinte maneira: estabeleci por critério que o desafio seria fazer com que, de alguma maneira, o mercado assimile o meu trabalho, e não que eu trabalhe por uma demanda imposta. Este seria o triunfo sobre o mercado: o mercado trabalhando para o artista, e não o artista para o mercado; dobrá-lo.

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