23 maio 2019

sobre a beleza

Pobres homens! Há milhares de anos sob um céu estrelado. Confusos, tentando acreditar em alguma coisa que faça sentido diante de tanta beleza. Alguma coisa que caiba em nossos limites estreitos. É sempre a beleza fazendo parecer que algo faz sentido, penso. Quem sabe não será estético o nó que nos amarra à nossa ignorância?
A própria morte, a abstração completa, vista da vida, ainda não é sempre bela? Que é a beleza? Isso que anima e embriaga, que permeia a vida do início ao fim? A propósito, que coisa linda é um nascimento! Brota das coisas vivas e passa num ciclo de fruto ou de flor. Mas o belo também está nas coisas nem tão vivas: no arranjo dos planetas, no fogo, nas crateras da Lua, nos crepúsculos, enfim. Também está nas ideias, nos gestos, nas palavras, nos sentimentos, nas intenções, na interação entre todas essas coisas e em parte alguma. Também são as próprias coisas vivas a perceberem e nutrirem seu espírito dessa beleza. Ou será esse um privilégio dos homens? Ou das almas de poetas? Talvez seja essa toda a fonte de nossa arte. Talvez seja a fonte de nossa angústia, de nossa ânsia pela imortalidade. Como se fôssemos iludidos pela beleza ao crer no que ela própria nunca prometeu. Mas que, certamente, sugeriu com grande ímpeto subjetivo como é de sua natureza. Ou será que, nas profundezas dos homens, a beleza é forjada para justificar essa ânsia pela eternidade?
Tenho a impressão de que nossas tentativas racionais de lidar com o belo, não raramente, desembocam numa religião. Que, a longo prazo, poderá desenrolar-se num genocídio. Mas é sempre por amor. Por amor à beleza. Mas, que é a beleza? Ainda não sabes? Ela vai atravessando tudo, mas nunca está em parte alguma. Nem é correspondente entre os homens. É a subjetivação última. Que tanto pode ser atribuída a uma grande força que rege todas as coisas, ou seja: Deus. Ou às profundezas abissais de nossa falta de senso do ridículo diante da eternidade.



Um comentário:

  1. Cara, primeiro obrigado por tamanha sensibilidade ao escrever. Segundo, eu estive pensando sobre isso a muito tempo, em como a beleza é sem lar, ela atribuí muitas formas de engano, em todos os tempos homens importantíssimos se deixaram a ela, se perderam. Eu lendo cada linha desse teu texto, degustei tudo que eu procura escrever. Obrigado, texto vivo, cheio, e com forma.

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