05 agosto 2019

Arte, benção ou maldição?


Arte, benção ou maldição? Dos espíritos fatalmente marcados por essa chaga viva, de quem a vida está submetida a certo tipo de devoção às coisas do sentir e pensar sobre o sentir. Saberá apenas aquele que assim vive, e talvez nem ele, se vale a pena tal gênero de existência. Porque todo amor e toda ferida doem mais cruelmente para ele. E o sangue verte em versos e quadros, enquanto por toda parte zomba a matéria bruta, a terra, as paredes e as árvores de sua aflição ansiosa e aguda. O único fim do artista é fazer arte. E fazer arte é organizar a dor. Colocá-la em algo. Amaldiçoar um objeto. O artista é um amaldiçoado. Um pobre diabo posto neste mundo para sofrer, para catar cada migalha do que há de belo e tentar desesperadamente pregar a seu favor. Numa sede feroz de quem ama sabe lá o quê. Atravessando desertos e labirintos com essa pequena vela acesa. Se cada pedaço do que creio ser meu não passa de uma grande miragem, ó Deus, pelo menos, ainda é minha esta ilusão. Quando transbordo, e faço isso sempre, o tempo inteiro, pois não sei não ser o que sou. Fatalmente, machuco as pessoas e a mim mesmo. Isso é da minha natureza atroz. Viver é sofrer, disseram. É isso mesmo. Mas é ainda pior. Viver é sofrer e fazer sofrer, para sofrer também por isso. No fundo de toda alma há um pobre fantasma atormentado, que só é feliz quando ama. Mas do amor sabemos bem. É um preço caro que se paga. E a conta logo chega.




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