08 abril 2020

Fim dos tempos nos corações: sobre arte popular

       Na minha opinião a grande arte deve ser popular. Não porque tenho problema com a erudição, mas porque acredito de verdade que é possível ser profundo, simples, preciso, delicado e ainda assim popular. E que isso é, na verdade, mais difícil e sofisticado. Se não há motivo que justifique a arte, pelo menos, que também não haja para que ela não exista então.
       Estamos errados caminhando para um abismo qualquer? É claro que sim. De todas as maneiras possíveis. O fim dos tempos é iminente, coletivo, individual e irredutível. Ninguém salva ninguém. Você pode me falar da sua dor: eu simplesmente não ligo. Posso te falar da minha: você também não liga. Mas se por acaso cantar lindamente sua dor, é possível que o mundo inteiro chore. E nessa hora cada um chora sua própria dor. Compartilhamos, e tudo fará mais sentido. E fará mais sentido até para não fazer sentido algum.
       Se a questão fosse “por quê?”, caberia sempre o mesmo nada. Que seja sempre pelas coisas que não precisam de porquês. Para que um dia possamos ser mais rebuscados, eruditos e mesmo assim sermos populares, pois as pessoas estarão prontas para isso - ou quem sabe, nós artistas descobriremos, os idiotas de outrora éramos nós.
       Eu acho que um artista deve tocar corações. Tocar como um cego toca um objeto e o descobre. Tocar como um músico toca seu instrumento. Tocar, tocar, tocar... Seja lá como for. Dê um sentido novo e interessante para isso e não deixe de tocar os corações. E se encontrar um coração vazio, faça dele uma maldita ocarina e continue tocando.




Um comentário:

  1. texto incrível susano, você e sua arte tocam meu coração de verdade, obrigada por nós proporcionar isso. Deves ouvir isso diariamente, mas é um grande privilégio ter conhecimento de você.

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