15 abril 2020

Sobre contemplação:

Às vezes quando estou sozinho me perco na paisagem. Gosto de criar teorias e pensar que as entendo. São teorias poéticas. Explico:
O Sol é o maestro da paisagem. Ele que sabe, ele que dá o tom: é um Deus! O deus pagão da beleza e da cor, gigante e pontual. As montanhas e suas topografias tem algo de musical que me hipnotizam. Posso escutar os picos e vales de sua silhueta. Sei que músicas estão cravadas no silêncio horizontal da Terra. Em cada paisagem um arranjo de silêncio abraçando tudo. Na carapaça das coisas, as texturas e cores. O que são os passarinhos? Meu deus! Pequenas criaturinhas que cantam e voam por aí! Sem saber que cantam e voam. E as grandes árvores, que dizer? Essas gigantes tão calmas, de nada se queixam, apenas esperam e esperam: como quem espera por alguém. Gosto de imaginar que elas estão se movendo, correndo talvez, mas em outro tempo, e na verdade o apressado sou eu. Que saudade! Se um riacho corta minha paisagem, eu também sei sobre o que ele costuma falar. Os riachos quase sempre falam sobre o tempo, sobre a impermanência, sobre o fluxo, sobre estar sempre mudando e apesar de tudo ainda ser o mesmo riacho, cheio dos mesmos peixes e pescadores. Que nunca são os mesmos. Serpenteando em busca de um ponto de fuga. Sem volta, sem volta, sem volta.
E quem é que pode sentir essa paisagem? Sou eu, para mim, apenas eu. Eu que vi todas as paisagens, eu que sou todas elas também. Um dia via tudo como se fosse a primeira vez. E de fato era. Era a primeira vez que me via. Depois tudo já era conhecido e do conhecimento uma fonte de tédio brotava. Mas os passarinhos nunca me entediaram. Apesar de seus repertórios pequenos. Eles não precisam de muito. Eu preciso. Por isso vejo saudade nas árvores, vejo saudade nos riachos. Sou eu em todas as coisas que vejo. Criatura arrogante como se tudo fosse feito para mim. E como negar que não foi? 







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