02 maio 2020

sobre o gesto

homem errando um lindo gesto de amor, por pouco


     Se todo gesto fosse de amor, mesmo as más interpretações estariam corretas? Gosto do gesto porque há nele uma mensagem sem palavras. E nesse tipo de mensagem cabem delicadezas que jamais poderiam ser ditas. Como não poderiam ser ditas são ainda mais eloquentes e fatalmente mais sinceras. 
      A pintura é uma sobreposição de gestos feitos sobre uma superfície por uma orquestra composta por mãos,  olhos, acidentes, escolhas, arrependimentos e decisões, regida pelo coração: para outros olhares e corações. Mas assim como um gesto pode estar impregnado de intenções, essas intenções também estão impregnadas de gestos reprimidos e palavras não ditas. 
     Quando pintei o “homem errando um lindo gesto de amor, por pouco”, entendi que toda a imagem estaria resolvida no gesto ambivalente do personagem, o gesto sutil que carrega uma grande tensão. E o que claramente deveria ser um delicado movimento de segurar uma flor, é imediatamente convertido numa imagem vacilante, através da interferência do meu gesto de pintor. Quase como uma pane visual, um desarranjo atmosférico, um defeito.  E que desta maneira arranjado, carrega tantas camadas de argumento que justifica na imperfeição do gesto a sua própria perfeição. E nos conta coisas como:  a perfeição só cabe no que é imperfeito. Numa pintura e num personagem que são crias do gesto, nascidos para falar sobre eles mesmos portanto.

Um comentário:

  1. Eu estou apaixonada por suas obras, você é muito talentoso, essas obras me trazem tantos sentimentos e interpretações, obrigada por isso e eu sei que a arte nunca vai morrer pois ainda existem artistas como você. Abraços.

    ResponderExcluir